A lavadeira no tanque

A lavadeira no tanque
Bate roupa em pedra bem.
Canta porque canta e é triste
Porque canta porque existe;
Por isso é alegre também.

Ora se eu alguma vez
Pudesse fazer nos versos
O que a essa roupa ela fez,
Eu perderia talvez
Os meus destinos diversos.

Há uma grande unidade
Em, sem pensar nem razão,
E até cantando a metade,
Bater roupa em realidade...
Quem me lava o coração?
Fernando Pessoa
15-09-1933

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2 Comentários

  1. Saudades!...
    Esse poema, de belo que é, já me inspira! Contudo, há nele um trecho que parece mesmo ser uma transposição do poema 'Motivo', de Cecília Meireles, poema que amo com todo o meu coração, que se fez simbolo da minha existência, e que declamei em um sarau aos doze anos de idade.
    'Eu canto porque o instante existe
    e a minha vida está completa.
    Não sou alegre nem sou triste:
    sou poeta...'
    Lembra-me também um poema, humilde e simples, que escrevi na adolescência, e que ficou numa folha amarela muito querida entre os livros de minha estante:
    'Eu sempre via as lavadeiras da beira do rio
    por instantes, quando não estavam lavando,
    quando as roupas quaravam ao sol, e elas
    ficavam ali, descansadas da lida, sonhando...'
    Quanto recordar abençoador me trouxeste! És bela, minha amiga!
    Abraçosssssssssssssss

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  2. Esse poema de Cecília Meireles é de fato a razão de todo poeta!
    Me alegro muito em causar recordações tão lindas!
    Um terno abraço!

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Abraços...