Pablo Neruda #1

O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.
Pablo Neruda

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2 Comentários

  1. Poema belíssimo. Às vezes, o ser pode suplantar o sentir, e podemos ferir a quem quiséramos acarinhar. É então que, transposto o ser e voltando a imperar o sentir, nos quedamos fracassados em nosso amar, desejando demais o perdão. Mais do que isto, Neruda com engenho vislumbra um desejo confessado de aprender a ser melhor, e amar melhor. Belo, belo, belo! Ternosssssss abraçosssssss a

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  2. "Ser melhor, e amar melhor" é o todos devemos buscar em nossos relacionamentos. Quem ama espera na altura do abismo do outro com "um ramo de jasmins todo orvalhado", e isso é inato de quem busca reparar as feridas causadas pelo ser impensado.
    Um terno abraço!! É sempre bom tê-lo aqui!

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